segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Bio Esquesitosomos 1993 - 2013


Biografia dos Esquesitosomos
(por Edson, escrita em 2012)
  
Foto de 1992, na calçada do Anésia (Hollywood). Esquesitos são: Henrique (abaixado), Edson (esquerda, de branco), André (direita, de branco) e Limão (centro, azul escuro). Também estão os amigos Roberto Future, Danilo, Wilson e Kiko.

            Eu e meu irmão Henrique (e mais alguns amigos) desde moleques (leia-se crianças) tínhamos a pretensão de ter uma banda de rock, daqueles chamados nos 80’s de “rock pauleira”. Aos 9 anos de idade, eu, o Henrique e nosso amigo de infância André formamos os Paralamas Arrebentados (alusão punk aos Paralamas do Sucesso), que tinha as músicas “Pancho fuzila uma mina”, “A mulher tem buceta peluda” e “Batman”, cantadas e tocadas com a ajuda de instrumentos não convencionais.
            Os Esquesitosomos (grafado assim mesmo, com “E”) se formou em meados de 1993 já com um nome punk que misturava doença e auto-adjetivo.
           A banda, até então de ‘boca’, tentou fazer seu primeiro ensaio com a seguinte formação: Dig Wave (vocal), Henrique (baixo), Turco (guitarra) e Marcelo (batera). Mas o vocalista não conseguiu cantar ‘no tempo’. Eu fiz uma tentativa e funcionou. Mesmo tocando tudo desafinado e sem qualquer instrução alheia de músicos experientes, decidimos levar a diante nosso projeto rocker cantando sempre nossas músicas em português (aqui é legal abrir um parêntese para explicar que naquela época, os 'cults' consideravam horrível cantar em português).     
            Em novembro de 1993 fizemos nosso primeiro show, todo independente. Trocamos idéia com um fera que organizava bailinhos na Sede do Jardim Tereza, aqui na nossa área (Pombal - Hollywood, São Bernardo do Campo – SP). Levamos nosso equipamento (nada) junto com o equipo dos caras da Distortion (uma banda da pesada de metal de SBC). Elaboramos cartazes maneiros ao que chamamos de “Seden Tour”, convocamos a rapeize toda. Foi bem legal! Um público excelente para um primeiro show: entre 150 e 200. Logo fomos reconhecidos como roqueiros do bairro. Estava iniciada a Horda da Desordem. Tocamos nossas músicas Nero, Futebol, The esquesitosomos e alguns covers como Orgasmatron e Cabeça Dinossauro (nossa versão, é claro).
            
Turco e Edson na Seden Tour - 1993. Acima o Henrique tocando baixo.
Sedinha lotada! O prédio foi ao chão, e hoje é o estacionamento 'pirata' do Fórum de SBC e da UFABC.

            Nos ensaios seguintes decidimos investir mais no nosso som. Entretanto, fomos surpreendidos pela demissão voluntária do batera Marcelo. Perdemos também nosso local de ensaio: a casa dos pais dele.
            Com sorte, no ano seguinte (1994), o nosso camarada André conseguiu uma batera para aprender a tocar. No quarto do apê da família dele fizemos nossos primeiros ensaios, dividindo o espaço com dois beliches, uma cômoda com TV e Odyssey, a cachorra Champanhe e o choro da irmã Jussara. Benditos sejam Seu André e Dona Cida!
            O som ficou mais funkeado devido à influência dos Peppers. Ensaiamos um bom tempo na edícula da casa do Valter (rua José Patrício), camarada da banda Massion Opression. Eram três bandas tocando na sequência, para alívio imediato dos vizinhos. E os pais dele seguravam a bucha. Temos um registro desses ensaios, que logo estará disponível. Começamos a ensaiar em estúdio e também gravamos, o que virou Demo Vídeo sob o título “De olho nos Cafonas”, divulgado amplamente por quem frequentou o apê dos Azevedo Alves.

Horda da Desordem em 1995.

            Nesta época tocamos em alguns lugares, tudo com produção independente, por exemplo a Escola Celga, num festival organizado e divulgado por nós e mais uns doido. Pra nós ficou conhecido por “eu ainda tenho 15 minutos”, que foi a frase dita por um Cover do Hendrix quando solicitado o término da sua “bela e empolgante” apresentação.
            No início de 1995 André decidiu nos abandonar. Foi um golpe duro. Fizemos contato com camaradas que tocavam em outras bandas e a formação ficou a seguinte: Edson voz, Henrique voz, Turco guitarra, Limão baixo e Simão batera. Com outros músicos há novas influências; o som foi para o lado do hardcore melódico (assim chamado no Brasil daquela época) cantado sempre em português e que ficou popular com outras bandas por volta de 2000.
Esquesitosomos em 1995: Simão deitado, Turco (segurando papel), Limão (cigarrinho), Henrique (centro), Edson (esquerda).
Limão, Edson (costas), Henrique (dread prateado) tocando no Colégio Anchieta em 1995, onde conhecemos o Danilo (batera).

            Fizemos diversos shows e realizamos festivais locais com várias bandas como Negative Control, Free Land, Acrofobia, Ox Frog, Noise’nd Blood, Cold Beans, Rise Up, Fúria Tribal, Killer Clown, Hard Skória, Massion Opression. Num desses, tocamos de terno, gravata e tênis. Na última música combinamos de sair correndo, deixando somente o batera Simão que faria uma cara de “o que tá acontecendo?” Foi bem engraçada a reação do público que realmente não entendeu nada!
           Gravamos uma demo que não lançamos em razão de não acharmos tão bom o resultado e porque tivemos outra baixa de batera: Simão, o batera que só tocava de samba-canção e meias, se mandou!
            Havíamos conhecido, meses antes da baixa, o batera Danilo. Embora ele usasse cabelo comprido – na cintura – e camisa do Pantera decidimos convidá-lo para os Esquesitos no início de 1996.
Ensaiávamos no Estúdio GIG, onde protagonizamos várias situações hilárias em razão da nossa postura avacalhadora e da arrogância do dono do estúdio. Não foi por nossa causa, mas o cara chegou a lacrar a torneira do banheiro com fita adesiva pra galera ter que comprar água dele. Íamos e voltávamos para casa a pé pela Avenida Atlântica (aquele subidão, manja? E o Limão carregava o baixo naquele case que apelidamos Caixão).

Danilo: reconhecido internacionalmente como um grande batera!

            Arredondamos alguns sons, fizemos outros novos e saiu a Demo oficial nº 1 (ainda era fita). A banda contava com Danilo (batera), Limão (baixo), Turco (guitarra), Edson e Henrique (vozes), todos ainda bem jovens (16, 17). Possui nove músicas. Foi gravada num estúdio de Santo André; ótimas canções. Abriu muitas portas para shows e foi muito bem aceita no estado de SP e em alguns outros também. Fizemos ainda mais apresentações (duas por mês em média) e realizamos pequenos festivais, como o Atitude For Fun - 1996 (fotos).
Henrique, e os corpos de Limão e Danilo. Naquela época, quem tirava as fotos (de filme) era o primeiro que aparecesse disposto.
Turco, Edson, Limão e Henrique.

            Foi nessa época que tocamos na Festa do Pijama, daquelas festas de faculdade cheia de pretensões de ser legal. O fato é que nem todos estavam preparados para o hardcore que iríamos destilar. Nestas situações fazemos questão de chocar. O som gerou a maior pancadaria, desta vez não promovida pela Horda de Desordeiros, que resultou em alguns desentendimentos.

Momentos de infração de trânsito. Na direção da placa: Limão, Piu, Henrique e Turco.

          Ainda em 1996, decidi, sob forte resistência, tocar “outra” guitarra. Em pouco tempo o som ficou redondinho. A partir daí, comecei a aparecer na descrição da banda como “guitarra e voz”.

Henrique e Edson - 1997, no Planeta Rock

         Na seqüência gravamos duas músicas para o SP PUNK volume 3; coletânea que foi gravada em CD em 1996. Foi uma experiência muito boa, pois levamos o nome e o som da banda para localidades que nem esperávamos. Recebemos muitos elogios de todo Brasil, até do Estado do Amazonas! Era uma época em que se encaminhavam zines e demos via Correios. Até hoje as pessoas pedem para tocarmos as músicas que estão na coletânea.
       Começamos a ensaiar no Overture, bem mais perto e agradável. Além de ter o som melhor, tinha o pai do Maurício que é muito gente fina!
          No início de 1997 gravamos outra fita Demo. Embora gravada após o SP PUNK e com a mesma formação, essa demo saiu antes da coletânea. Tem nove músicas. Com alguma experiência em estúdio (e falta de grana), decidimos gravar ao vivo no estúdio Overture (valeu Maurício!). Vale a pena escutar. Essa demo foi divulgada só em SP.

             Tocamos em vários lugares, inclusive no interior de SP, com shows fantásticos e inesquecíveis como o de Itapetininga, onde conhecemos os malucos do Ox Frog.
           Também neste ano encabeçamos os shows punks do lendário Banzai Bar, em São Caetano, onde muitas bandas fizeram escola e público. As apresentações eram sempre superlotadas, principalmente em virtude do tamanho reduzido. Mosh era obrigatório, mas só os fortes aguentavam um show inteiro. Ali era o lugar onde o músico disputava espaço com o público, num embate direto, sem direito a palco, instrumentação razoável ou ventilador. Era muito comum alguém passar mal por causa do ar escasso, por ter quebrado o braço ou cair de cabeça no chão. O importante é que sobrevivemos para contar a história.


Cavera vermelha no Banzai. Era o começo do show. Essa é a última imagem dessa camisa do Henrique. Ali eu gostava de tocar no chão, enfrentando o público no pogo. Desafinava a guitarra direto, e muitas vezes alguém caía em cima da batera. Às vezes o Massaroca fazia a barricada. Esse vídeo foi digitalizado. Há outros em processo de digitalização.

BANZAI!

         Em 1998 os shows no Banzai cessaram e cena voltou-se para o bar do Bó, em Bernardon. Fomos muito felizes por ali também, com vários shows lotados. Todo mundo ganhava com a reunião daqueles jovens para curtir boa música independente. Ficamos muito trutas dos caras dos Reincidentes. Muito skate e punk rock!
Alguns amigos nossos de outras bandas enveredaram pelo caminho dos instrumentos de sopro. Foram convocados a tocar conosco e ficamos com a seguinte formação: Danilo (batera), Limão (baixo), Turco (guitarra), Edson (guitarra), Deco (trompete), Piu (trombone), Anderson (trompete) e Henrique (vozes).
          Lançamos uma fita Demo que tem uma história meio confusa: gravamos oito músicas que sairiam em forma de SPLIT junto com o Sapo Banjo, mas o dono do selo “pilantrou”. Tomamos a gravação. Fizemos mais três músicas e gravamos no Overture ao vivo. Lançamos em forma de demo, que não foi tão divulgada. Quem tem esta demo gosta bastante, pois é a primeira com metais.

Pirata, Deco e Piu: os metais dos Esquesitosomos tocam, cantam, dançam e se divertem num show no Clube das Mulheres.
          
          Ainda em 1998 iniciaram-se as Caravanas da Coragem, com a Horda dos Desordeiros (embora isso seja quase um pleonasmo). Eram viagens de ônibus para shows no interior. Em geral íamos lotados, inclusive com menores sem autorização, portando e usufruindo de substâncias ilícitas e prejudiciais ao bom procedimento moral e social. Resultado? Shows alucinados, com bastante público e muito animados. Porém nem sempre saem todos ilesos desse período de exageros. 

Henrique e Turco.

      Demos sorte de não sermos presos ou mortos. Em uma ocasião lembro de ver os metaleiros dos esquesitos brigando com o próprio público, numa treta de galera que poderia tomar proporções fisicamente prejudiciais a todos os membros da banda e seus amigos da Horda dos Desordeiros se todos ali nos vissem como inimigos. Terminamos o show normalmente. Fomos alertados que havia um grupo armado se dirigindo para embate conosco. Preferimos enfrentá-los num outro momento. Alguns meses depois, voltamos a tocar no mesmo lugar, mas sem treta.

Limão, Turco, Edson, Henrique, Danilo (atrás do Henrique), Piu, Pirata, Deco e Anderson. 
Esquesitos e seu público 'ladrão de toca-fitas'. A treta foi nesse dia. No fundo tem um cartaz 'pela paz'.
          
             Houve também um outro local que foi cativo dos esquesitos e sua trupe: Nós causamos bar. ali também rolou muito hardcore, guitarbands e punk rock. Foi mais ou menos um ano de vários shows bons, agendados e agilizados pelo Henrique.
          Na sequencia, por volta dos 2000, um amigo nosso, ToyToy, abriu um bar. Ali a Horda dos Desordeiros estabeleceu-se por mais um ano e pouco e vários shows memoráveis rolaram. Percebemos que já havia uma nova cena se formando, não éramos mais os mais novos e a molecada estava arregaçando no som.
Fomos convidados para a coletânea Skacetada. Gravamos dois sons: Pazuzo e Zé Esteves. Os Esquesitos distoam das bandas envolvidas no projeto. Recebemos críticas por não sermos tão ska, mas também elogios pelo som diferente. A coleta saiu em 2002 e foi absorvida pelo público de uma forma tão surpreendente que o cd tornou-se uma raridade.

Show no Hollywood, onde fomos denominados 'Astros da Várzea' pelo grande Roosevelt.

Promo metais, durante a gravação do disco preto, 2009.

        Neste mesmo ano, decidimos dar um tempo. Muita confusão nos shows, tretas, loucuras, exageros, violações, coisas surreais mesmo rolando. A energia sempre foi foda nos shows e nos encontros desses amigos, mas estava indo para um lado negativo. Paramos os ensaios e declaramos o fim da banda.
  
Show na pizzaria: neste dia o Turco zuou o joelho durante o show e teve que tocar sentado. Foi um forte golpe para um dos caras que mais agitava nos shows.

Foi legal tocar no Sesc, mas a outra banda causou (questão de tempo de apresentação) e fomos obrigados a lhes ensinar uma lição.

            Mas as pessoas querem o que? Ver desgraça, né? Voltamos em dezembro de 2005 com um show exclusivo, só para convidados. Puta show! Muita emoção, vibrações positivas. 


 


         Fizemos mais alguns shows em várias casas de sp e internamos em estúdio para fazer uns sons. Tivemos uma baixa: Turco largou a guitarra. Mas foi substituído com louvor por Toninha Malaco.
  Toninha, dedilhando a guita. Danilo quebrando tudo.
Henrique flutuando na OUTS, 2006.

Roosevelt no clássico 'bolinha'. Sarau bar, 2005.

Deco, num belo solo de voz. Pirata observa e aprova a bagunça.

      Você sabe o que é fazer uma música? Imagina criar um som com outros sete caras ao mesmo tempo. Leva tempo. De 2006 a 2009 tocamos alguns shows e deixamos alguns sons prontos. Gravamos em 2009, o disco preto saiu em 2010. Decidimos gravar algumas das músicas antigas que não tinham sido tão bem registradas: Otílio, Caveira.


Trampando o baixo de um dos sons do disco preto. Às vezes ficam todos desenvolvendo uma parte ao mesmo tempo. Inferno auditivo. O Limão já foi eleito algumas vezes o 'melhor baixista de São Bernardo'.

       Fizemos mais alguns shows, mas a idade vai chegando e um show dos esquesitos significa tirar pelo menos 8 pais de família de casa. Tem que ser para uma boa apresentação, com boa instrumentação, palco que nos comporte e condições favoráveis em geral. Dessa forma, os shows diminuíram.


Otílio, no Hangar, 2008.

     Em 2010 fomos convidados para tocar num pico da rua Consolação, onde tínhamos feito um show em 2006. Porra, quatro anos depois os caras ainda ofereciam aquele mesmo Crate 65w para a guitarra (e esse era o melhor ampli de guitarra)... Ok, esquesitos não tem frescura, mas pensa bem: nossos amigos vão até o pico, pagam para entrar e consumir, e o cara nos oferece essas condições? O ampli queimou durante o som. Tive que tocar (fingir que...) na segunda opção: um Fender de 15w. E a qualidade do som?
        No momento as atividades estão suspensas. Estamos dedicando nossos esforços em outras frentes, inclusive para criar melhores condições de apresentações artísticas, e não é só para nós não. Sempre pensamos no coletivo. Quem é do meio, sabe da nossa atuação para criar esses espaços, onde o artista é respeitado e tem seu direito garantido. Mas não é fácil seguir pelos caminhos da cultura alternativa e independente. Tudo depende de dinheiro e para manter-se fiel a produção artística, é necessário não se vender às esmolas oferecidas. Um espaço digno e não vendido, onde cada um mostra o som que quer. Nosso ideal sempre foi esse, e assim sempre será.

           Essa é a história dos esquesitos, apenas. Durante esse período todo, tocamos também em outras bandas, fizemos curta-metragens, escrevemos, participamos de outras atividades culturais e de esporte. As pessoas são mais complexas do que aparentam. Existem mais do que duas faces opostas numa moeda, justamente por que as pessoas não são moedas (ou não deveriam ser).


Superação punkrocker!

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